6.7.15

Factos sobre mim (2)






Há alguns anos, mais precisamente quando tinha 15 anos, floresceu em mim uma paixão avassaladora pela arte da escrita, pela arte de inventar e contar histórias, na sua forma escrita. Foi numa fase conturbada da minha adolescência, uma fase em que me tornei mais adulta mas também em que conheci a dor numa das suas formas mais negras. Uma fase em que fugia das pessoas para me refugiar nos monumentais mundos que os livros encerravam. E, aos poucos, floresceu aquele desejo que não me deixava dormir, invadia os meus sonhos e me tirava a atenção de todo o mundo exterior. É algo para o qual ainda não encontrei explicação. Escrevi um pequeno livro, que nunca editei, pois o preço era algo que jamais iria deixar os meus pais pagarem, embora o quisessem, na altura. Escrevi imensas histórias que ficaram por acabar. Imensas personagens cuja vida ficou por completar. E, com o passar do tempo, essa paixão acabou por adormecer dentro de mim. Esmoreceu, mas está sempre lá. Sinto-a de vez em quando, a resmungar, a chamar por mim, mas não sei como voltar a puxá-la para o centro do meu subconsciente. Quando o vento sopra, quando me sinto livre, quando sinto a natureza ou olho para o mar, ela chama-me. Quando leio alguns livros e vejo alguns filmes, ou mesmo ouço certas músicas, ela chama-me. Porém, tenho uma vida demasiado complicada para lhe dar a atenção de que precisa. A saudade às vezes invade-me o peito com um vazio que me magoa, porque é isso mesmo que esse esmorecimento deixou dentro de mim, um vazio. E esse vazio é preenchido momentaneamente nos momentos em que esse desejo de escrever dá sinal de si. Tenho saudades de criar. Criar as minhas próprias aventuras. Criar personagens, viver paralelamente com elas as suas histórias, dar-lhes felicidade, tristeza, dar-lhes a magia para respirarem. Sei que perdi o jeito. Sei que perdi a motivação. As ideias, tenho-as todos os dias, mas perdem-se quando pego na caneta e no papel. Perdi o jeito para imortalizar as personagens e os seus enredos. Já nem mesmo a poesia me espanta como outrora. E isso dói-me. Dói-me porque deixei escapar a magia por entre os dedos. No fim da única história que consegui acabar, chorei. Chorei por ter chegado ao fim, chorei de saudade, chorei porque consegui trazer ao mundo um pequeno mundo. Se isso não é magia, digam-me o que é, porque não sei o que mais lhe chamar.