Este ano não começou da melhor maneira, para a minha família. Antes de escrever isto, não sabia muito bem o que dizer nem como deitar cá para fora o que me ia na alma, o que tem estado aqui dentro retido durante todo este tempo. Começo a pensar que perder um pai para a morte, é difícil, é horrível, mas perder um pai porque ele nos abandona e nos deixa quase a passar fome, prefere outra mulher, outras filhas, é como uma lâmina cravada a sangue frio na nossa carne, no nosso peito. Sempre soube que ele não era um homem decente, não tinha um pingo de apego ou amor para connosco, mas nunca pensei que fosse uma pessoa tão mesquinha. Demorou bastante até que a minha mãe deixasse de andar de cabeça caída, de chorar todas as noites, demorou bastante para eu a convencer de que a vida continua e que ele nunca tinha sido homem para ela. Mais complicado está a ser a tarefa de levantar a minha irmã, uma adolescente na fase mais revolucionária da vida dela, que de repente é trocada por outras pessoas, que de repente se vê no meio de uma mudança radical que vai deixar muitas cicatrizes. Já não é a mesma rapariga alegre, divertida, desprendida, de antes. Não a reconheço mais, aquela criança feliz que dava cor à casa. Tudo isto alimentou a minha raiva e queimou todas as lembranças boas, tudo isto me fez perceber que agora estamos por nossa conta e a luta é ainda mais árdua, mais dolorosa. O dinheiro é sempre aquela preocupação constante e costumo dizer que temos de viver um dia de cada vez, até que os dias acabem. Tudo se há-de resolver. Tudo menos o meu ódio. Se algum dia essa pessoa a quem chamo pai resolver voltar, nem que esteja a morrer, a minha porta não se abrirá. Se alguma coisa herdei dele, foi a frieza que ele tem no coração. A estrada continua e temos de seguir caminho, umas vezes bem, outras vezes a chorar, outras vezes a mancar, outras vezes apoiados em alguém.... mas temos sempre de continuar.




