Coimbra. Tudo recaí neste meu relato sobre Coimbra. E tudo começa com um café e umas folhas rabiscadas sobre inúmeras matérias de uma cadeira problemática do curso de Direito. Café. Aquele sabor que me anima o corpo e a alma todas as manhãs. Calhou hoje ser um café de esplanada, porque me apetecia tomar o ar frio do rio e porque me apetecia apreciar calmamente a vida matutina da minha cidade. Por entre o fluxo de turistas, transeuntes e algumas faces fugidias nas janelas altas, surge-me um grupo de estudantes com o tradicional traje negro de Coimbra. Algo me faz olhar duas vezes. Do traje só têm afinal a capa e de estudantes parece-me terem pouco. Homens. Homens de barba, quarentões, carregando violas pela baixa. Observo distraidamente os seus movimentos e atento-me neles quando uma figura pequena se abeira do grupo nada invulgar. Um idoso abeira-se e da conversa animada que se inicia percebo pouco. Uma conversa entre muitas que se soltam para o ar na baixa de Coimbra.
- Já ninguém fala em Fado, só querem saber do futebol.
Coimbra. Já pouco te encontro nas entrelinhas o que te um dia caracterizou. Já nem mesmo a magia estudantil de outrora. Encontro-te o cheiro a água doce, encontro-te a magia nas noites em que sossegas com as tuas luzes deitadas sobre o espelho que é o Mondego. Encontro-te nas ruas apertadas e labirínticas que sobem até à Universidade. Encontro-te nas ruas em que a eternidade parou o relógio e as paredes transpiram essa melodia doce que transforma o poema em música e os sentimentos em profundidade. O Fado continua em ti, nos recônditos das tuas origens, imortalizado por quem ainda o aprecia e pelos que querem dele tirar proveito. Continua respirando nessas ruas cinzentas na penumbra da memória e de pedras carregadas de história. Sobrevive. Invade-me as veias quando o encontro e sopra-me no espírito uma miríade de memórias. Persiste, apesar de tudo. Cantos de outrora, aninhados sobre as águas.
A música não tem idade. É um prazer eterno. Qualquer particularidade a torna única. Pode falar-se em futebol e os portugueses podem até ter-se esquecido, mas em Coimbra, como em muitos outras ruas de Portugal, ainda existe Fado, ainda existe tradição. Ainda existem ruas que contam histórias.





Que poesia melodiosa e gostosa de se ler.
ResponderEliminarConfesso que nas entrelinhas fiz minha viajem mental por cada um dos trechos escritos por ti...
Deixo-te um bj de carinho, prometo voltar muitas vezes pra ler devaneios poético e lindo como este, em que suas delicadas mãos o escreveram....